Domingo, 14 de Outubro de 2007

Achados no baú (3)

Uma das posturas que mais me afligem, quando leio recensões de discos ou críticas de concertos em publicações portuguesas ou estrangeiras, é o posicionamento de certos textos que não conseguem disfarçar nem sequer estão dispostos a ensaiar uma desejável distanciação em relação aos gostos que o implicado escriba nutre por tal ou tal músico e esta ou aquela corrente estética.

Sem querer estar armado em santo (já que raramente o terei verdadeiramente conseguido), não foram poucas as vezes em que, ao longo dos anos, procurei dominar as minhas paixões pessoais no sentido de poder comunicar ao leitor uma opinião o mais objectiva possível sobre uma dado objecto artístico.

Uma dessas ocasiões mais penosas terá sido a crítica que há anos [26.06.99] senti o dever de escrever no Diário de Notícias a propósito da edição de um disco (à data, o mais recente) gravado por um dos músicos que mais incondicionalmente admiro: Brad Mehldau.

 


 

 

 

Questões de estilo

 
Onde se fala do mais recente [1999] álbum de Brad Mehldau e se levantam um conjunto de questões muito pouco discutidas no jazz
 
Ainda na semana passada [19.06.99] aqui utilizava a expressão «incongruência estética», a propósito do álbum Marsalis Plays Monk do trompetista Wynton Marsalis, e já hoje não encontro expressão menos contundente para me referir a Elegiac Cycle, o disco mais recente [1999] de Brad Mehldau, gravado em solo absoluto em Fevereiro deste ano [1999] - sendo que, entre o oportunismo de um e as conjunturais fragilidades de outro, quaisquer semelhanças são pura coincidência!
 
Convém esclarecer que, em termos de franquezas, me sinto perfeitamente à vontade para levantar fortes reticências ao novo trabalho de um músico notável em relação ao qual desde a primeira hora arrisquei os mais convictos elogios, considerando-o «o caso» mais transcendente que terá surgido nos anos 90, no âmbito do jazz contemporâneo de raiz clássica - delimitação e precisão que, sublinhe-se, não eram despiciendas.
 
À semelhança do que se passa com tantos outros grandes músicos de jazz, Brad Mehldau foi construindo paulatinamente um estilo que hoje já atingiu a maioridade criativa, no refinamento de um discurso próprio que agora se distingue e até se afasta, de forma nítida, das próprias influências que ajudaram a dar-lhe corpo, tanto as vividas no campo do jazz como as absorvidas a partir da música erudita.
 
Se, no primeiro caso, os sinais mais óbvios podem encontrar-se em traços estilísticos de um Evans ou de um Jarrett ou, ainda, em outras curiosas incursões pelos terrenos de certa música pop, no segundo caso, não andam longe os sinais de Debussy ou de Fauré, pelo impressionismo das deambulações harmónicas (sobretudo nos três magníficos álbuns da série The Art of The Trio), mas também de Beethoven, Schumann ou mesmo Brahms, pelos arrebatamentos românticos ou pelo classicismo das formas.
 
Muito naturalmente, é esta a saudável expressão da acumulação de cultura que, no campo da música, Mehldau foi empreendendo, sendo certo que, no seu caso - até de acordo com as amplas reflexões avançadas pelo pianista nas notas insertas em Elegiac Cycle e que, valha a verdade dizê-lo, se desejariam menos justificativas -, as paixões e os interesses culturais de que dá provas extravasam em muito a própria Música, o que não deixa de ser assinalável.
 
Entretanto, as reservas que o resultado concreto de todo este seu projecto [1999] mais recente (me) suscita radicam, precisamente, nalguns sintomas de inconsistência e momentos de debilidade que em termos de coerência interna surpreendo no mesmo, se quiser enfrentá-lo à luz dos mesmos critérios de rigor valorativo que já apliquei em relação a anteriores experiências do pianista.
 
Entendamo-nos. No jazz perfilhado por Mehldau, sendo a qualidade do discurso musical altamente determinada pela maior ou menor capacidade de imprimir uma implacável lógica de construção e um elevado conteúdo criativo ao acto de composição espontânea que é a própria variação improvisada no acto de tocar, os dispositivos de apreciação de que nos servimos para julgá-lo são substancialmente diversos daqueles outros que aplicamos em relação à música clássica - na qual, por definição, o tempo, o modo e a própria estratégia de composição de tal ou tal obra são prévios à sua interpretação, porque sujeitos a prolongadas e profundas reformulações antes de atingir a eventual perfeição da sua forma final.
 
Ora sucede que, neste Elegiac Cycle, a sua obra mais vulnerável porque a menos-jazz de todas as que até hoje gravou, Brad Mehldau envereda com mais nitidez e maiores delongas pelos terrenos formais próximos dos grandes autores clássicos que, mesmo de forma implícita, acha por bem invocar, o que tem como consequência inevitável passarem a ser critérios de avaliação da música erudita (e não já, exclusivamente, os do jazz) a modelar e a determinar também, de certo modo, o próprio julgamento do crítico.
 
É neste sentido que, pese embora a coragem do empreendimento (ouçam-se os fabulosos Memory’s Tricks ou Trailer Park Ghost), não podem passar em claro determinados desajustamentos que, do ponto de vista estético, se descobrem de forma surpreendente nesta última obra de Brad Mehldau.
 
Desajustamentos que, por vezes, ocorrem no campo da harmonia, com a utilização de tal ou tal acorde, modulação ou sequência harmónica que soam deslocadas face ao que se lhes segue ou vem do antecedente; ou no campo da melodia, com a utilização de certas frases musicais ou mesmo simples notas de passagem que, neste preciso sentido, deixam de ser liberdades ou fugas a uma lógica interna relativamente volátil (como é a do próprio do jazz improvisado) para se tornarem incómodas e estranhas aos rigores formais de um mundo clássico que aqui nos surge citado e até decalcado de forma tão absorvente. Exemplos? Bard, Goodbye Storyteller, Rückblick ou o trágico equívoco de The Bard Returns.
 
Neste sentido, não deixando mesmo assim de nos proporcionar belíssimos momentos musicais - como Resignation ou Elegy for W. Borroughs and A. Ginsberg - Elegiac Cycle resulta numa obra sintomática de certos impasses, o maior dos quais não deixará de corresponder à cruel interrogação sobre se será este caminho estético aquele que melhor corresponde ao nosso tempo.
 
(in DNMais, à data, suplemento do DN, 26.06.99)
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:57
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